[Olá, sou o Hildebrando. Não estou a brincar, não, chamo-me mesmo Hildebrando. Se queria ter estado presente quando a derradeira conversa sobre a escolha do nome se desenrolou, para evitar o que viria a ser uma vida de soletrações constantes? Epá, que pergunta. Claro que sim, ter-me-ia poupado imenso tempo, pelo menos aquele que eu perco quando me perguntam o nome e eu viajo com a mão bolso, acho a carteira, retiro o meu cartão de cidadão e o entrego educadamente à pessoa para que esta escreva legível e correctamente o meu nome. Infelizmente, o facto de me apresentar na forma de feto, todo eu enjaulado no interior de uma pança (nisso, ao menos, fui igual a todos os fetos), retirou-me poder de decisão (ou de veto, neste caso) e já não fui a tempo de evitar esta catástrofe polissilábica. Bem, mas o que eu me chamo não é o que eu sou, pois se eu fosse o que me chamo, então seria um eterno infeliz. Um ser de nome invulgar que procuraria conforto na vulgaridade para se integrar, e que, assim, se resignaria a comprar produtos de marca Mini Preço, a usar sabonete para lavar o cabelo e a andar de autocarro em vez de solicitar um Uber, como qualquer José deste Portugal faria.]
Bem, águas passadas não movem moinhos, já dizia o outro. Eu, entre muitas outras coisas, sou também o filho do rosto por detrás da marca - M.F.JOIAS. E estou a escrever a pedido da minha mãe - Maria Filomena (um nome vulgar que não faz jus à rareza de ser humano que é).
Ela pede-me várias coisas numa base diária, desde logo que reencaminhe as camisolas que vieram de lavar, e que estão há semanas empilhadas em cima da aparelhagem, para o interior do roupeiro, local onde, normalmente e como o nome indica, se guarda a roupa. Normalmente, lá está. Porque usar o roupeiro é para aqueles desgraçados que não possuem aparelhagem, esses pobres saloios que desconhecem que um sistema de som da Sony não é, de facto, um sistema de som, mas sim uma superfície plana para acomodar todo o tipo de carga, em especial, roupa. Claro que eu, como bom filho que sou, obedeço. Tratei de agendar um dia para Abril só para arrumar a roupa. Ah, pois é! Eu sou assim! Organizado, eficiente e um e marido prendado em potência. Ora, se a minha mãe me pede para arrumar a roupa em Janeiro, eu não vou deixar para Maio aquilo que posso fazer em Abril. É que nem pensar! Vou já tratar disso... em Maio!
Socorrendo-me de uma expressão celebrizada mediaticamente por Jorge Jesus, a verdade é que a minha mãe percebe BOLA (visualizem-me a gesticular a bola) de computadores e informática. Aliás, devo perceber mais eu de desmaquilhantes bifásicos do que ela deve saber acerca do Excel. Tenho a certeza que, se lhe perguntasse o que era o Excel, ela diria que era para aí o novo modelo eléctrico da Hyundai ou um programa de engenharia aeronáutica no Discovery Channel. Uiiiiii, se eu recebesse 1€ por cada vez que já ouvi “ ... E vou, vou tirar um curso, vou. Tenho que me desenrascar sozinha!”, ou “... Não, agora é que vai ser. Já estive a ver escolas e formações e, quando tiver tempo, vou lá inscrever-me!”, estaria milionário. Teria dinheiro suficiente para reformar a minha mãe, pagar-lhe a porcaria do curso de informática e, desta forma, estando ela apta a manusear sozinha o computador, fazer com que fosse ela a escrever a sua própria história. Até podia ser que desse para despachar a roupa que está em cima da aparelhagem mais cedo ...
Pois bem, enquanto o Inverno não vai e a Primavera não vem, vou tentar “falar um pouco mais sobre o negócio”, aceitando o repto do facebook e a ord... o pedido da minha mãe. O maior óbice a este processo é ser capaz de sintetizar com o máximo de rigor o funcionamento, os produtos e o tipo de serviço oferecido, isso e o facto de ser uma área que me é completamente desconhecida. Eu sei lá o que a minha mãe quer destacar. Acho que nem ela sabe. No outro dia, depois de jantar, sentei-me ao seu lado no sofá, de computador no colo, e perguntei-lhe quais eram os produtos que ia vender, de modo a ir preenchendo as informações gerais da página. Ela, intrigada, responde-me com uma pergunta: “Isso é preciso pôr?”. Pois. Se calhar vou publicar a grelha de programação da Fox Life ou a receita de bacalhau com natas da Cristina Ferreira, talvez assim as pessoas comprem uns brincos.
É que eu não percebo patavina de ourivesaria. Nada! Eu sabia lá que uma escrava era um tipo de pulseira. Quando ajudei a introduzir o inventário no programa, e me deparei com “ESCRAVA DE OURO” escrito numa etiqueta, passou-me pela cabeça que o projecto tivesse alterado para tráfico de seres humanos. Eu sei que é ilícito e anti-civilizacional, mas também é rentável. Também sei que há cada vez mais restaurantes veganos, que é uma actividade comercial perfeitamente legal e que até vende produtos de inestimável valor nutritivo e, acima de tudo, valor existencial, já que comer um bife à base de miolo de pão pode salvar a vida a uma vaca argelina. É um conceito de alimentação saudável, moderno e progressista, e, no entanto, é tão ou mais macabro do que transaccionar pessoas para a prática da escravatura.
Devo confessar que, face às evidências aparentes, pensava que a minha mãe tinha adquirido uma funcionária de topo, não conseguindo esconder o orgulho que sentia nisso. Foi isso, pelo menos, que depreendi ao ler, em letras garrafais e de opulência inegável, a palavra “DE OURO”. Por breves momentos, imaginei-me a privar com Cristiana Ronalda das escravas. Poderia, sei lá, até herdá-la, no futuro. E, quando ela deixasse escapar os primeiros sinais de insatisfação, cansaço ou revelasse tiques de vedeta que pudessem contaminar a senzala, em vez vez de puni-la, vendia-a para a Itália, por mais de 100 milhões de euros.
Mas não. Escrava é mesmo uma pulseira, eu sou mesmo parvo e uma página no facebook continua a constar da lista de desejos da minha mãe. Para quê, ninguém sabe. Nem ela própria. Ela quer porque sim. Tal como quis fundar a sua própria firma porque sim. Ela é assim, decidida e obstinada. Mas, por mais paradoxal que pareça, ela já não trabalhava há 2 anos. Não era uma questão de desleixo ou de preguicite aguda súbita, muito menos porque ambicionasse uma vida à base de cheques do subsídio de desemprego.
Eu fui testemunha da sua caminhada. Todas as semanas ela pegava no telefone e tentava a sua sorte. Vasculhava todos os cantos e recantos da cidade do Porto que estivessem disponíveis para alugar e onde ela pudesse assentar arraiais. Foram tempos de muita marrada na parede, de portas fechadas e de mensagens esquecidas em Voice Mail. Assisti a esta carnificina de nãos, de mãos e pés atados, sem saber o que fazer ou dizer para melhorar as coisas. Era como se a minha mãe estivesse perante um pelotão de fuzilamento, só que em vez de pistolas haviam respostas negativas, e em vez de balas haviam nãos.
A minha mãe, nesses dois anos, passou a adormecer mais vezes no sofá, a ver mais vezes o Goucha e a Cristina de manhã e a fazer assados mais vezes à semana. Tudo perfeito, menos o facto de ser tudo uma consequência de algo imperfeito. Dormitar no sofá é das melhores sensações, mas é mais saboroso quando sentimos que merecemos dormitar no sofá. Não se tornará estafante ver o programa do Goucha e da Cristina, se as nossas manhãs estiverem sempre livres e desocupadas? É que consumir tanta gordura audiovisual diz que faz mal ao cérebro. Ao contrário dos assados, pronto, isso aí concedo que foi uma vantagem.
Estas rotinas forçadas puseram a sua vida em suspenso, ou, pelo menos, uma parte da sua vida. Mas a minha mãe nunca se deixou afectar. Nunca. E hoje, à custa do seu trabalho e determinação, ela tornou tudo possível. Os seus sonhos passaram a objectivos e os seus objectivos a realidade. Já eu, tentei de tudo para contar uma história. Algo que fizesse o mínimo sentido, com estrutura e que agarrasse a atenção das pessoas. Tudo isto sem nunca desviar o foco do assunto central: a M.F Jóias.
Modéstia à parte, acho que o objectivo foi alcançado.
E vocês perguntam: “Mas tu não falaste uma única vez sobre a loja? Informações de preços, de produtos, de marcas, não houve uma descrição detalhada do negócio, se é possível encomendar online, nada de nada ...”
Mentira. Falei sim.
O grande atributo da M.F Jóias não é o que está para venda, os colares e as alianças, os brincos e as pulseiras, mas sim quem as vende. Porque, quem vai, vai pelas jóias. Quem volta, volta pela pessoa.
E voltam para ver a maior jóia de todas... ELA.
A minha mãe.