27/10/2025
“na série, me cubro com massa de
porcelana branca, como se fosse uma
sobrepele, uma outra pele. a porcelana
seca e craquela, pois é frágil. como
a imaginação de que somos brancos.
conforme ela seca, ela repuxa a pele,
torna-se pesada. como um fardo. ao
repuxar a pele, os membros também
são repuxados. o ombro encurva,
fico corcunda. o pescoço também.
fico muda. o rosto todo coberto. fico
cega. ao perceber o craquelamento,
começo a tirar essa sobrepele, com
curiosidade, com cuidado e delicadeza
num primeiro momento. depois
começo a tirar com mais energia, raiva
até. tiro dos olhos, da boca, do pescoço,
do ombro, do peito. isso dói. a massa
estava muito grudada em mim. depois
de tirar tudo, me vejo leve, e até a pele
está melhor. me vejo lisa, suave. o pó
da porcelana continua em mim. alguns
fragmentos também ainda estão lá.
provavelmente ainda por muito tempo.
como fragmentos de uma pele
que não é a minha.”
Pensei em fazer essas fotos depois de ler um texto do Poroiwak () sobre pessoas amarelas que se descobrem pessoas não brancas, racializadas, depois de uma vida achando que eram brancas, vivendo uma confusão de identidade. Eu não achei o texto específico que me fez pensar nisso, mas o conteúdo todo que ele posta é bem legal.
White Face, 2025
série fotográf**a
Fotos:
Em exposição no Bunkyo até 9/11