10/08/2025
Acho que sempre é possível escolher como olhar para o que a vida nos deu. Depois, tudo foi desencontro, tempestade, silêncio. Mas houve um tempo, sim, houve um tempo em que o amor se materializava, como na banana amassada salpicada de leite em pó, nas estórias malucas que me faziam dobrar de rir, nas bonecas de espiga de milho que tinham cabelos como os meus. E nessa preciosa caixinha da memória, guardo lembranças do pai que tive. E nela não cabe tristeza e dor com o que veio depois. Escolho trazer comigo amor, não mágoa. Os abraços e risadas, não o rompimento. Guardo com valentia e protejo do desamparo o coração da filha que perdeu o pai em vida, porque quando o vazio emoldura o silêncio do que as palavras não dão conta de traduzir, eu corro pra minha caixinha mágica e as lembranças da infância me dão colo e abrigo, como se tudo que veio depois nunca tivesse havido.